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Primórdios da Complexidade – parte 2

1. Contextualização

Inicia-se esta análise considerando quando viveram e em que contexto trabalharam Wiener e Bertalanffy.

Norbert Wiener (1896–1964) era um matemático americano, doutorado por Harvard em 1913 aos 18 (!) anos, e fez carreira no MIT. Sua principal atividade esteve ligada à matemática, desenvolvendo trabalhos em séries de Fourier, análises harmônicas, teoria ergódiga [1], entre tantos outros temas. Foram mais de 250 publicações (Masani, 1990).

A teoria da informação esteve, desde o princípio das discussões sobre o tema, em seu campo de estudo, tendo inclusive influenciado Shannon na sua obra:

“Communication theory is heavily indebted to Wiener for much of its basic philosophy and theory.” [2] (Shannon; Weaver, 1964, p. 85)

No começo da década de 1940, Wiener assim como outros cientistas, estava envolvido com os esforços de guerra. Das análises para entender os mecanismos de funcionamento das máquinas e do paralelo com seres humanos, ele e seu colega pesquisador Bigelow [3] entram em contato com o Dr. Arturo Rosenblueth (Wiener, 1971, p. 19), médico mexicano e pesquisador em Harvard. Desta colaboração nasce um artigo dos três em coautoria (Rosenblueth; Wiener; Bigelow, 1943) que, de certa forma, é o indício do que estaria por vir.

Cibernética, publicado em 1948, foi a consolidação de suas pesquisas em fisiologia animal e humana, sistemas de controle, computação, análise matemática de sistemas dinâmicos e, sob alguns aspectos, considerações sobre os caminhos da sociedade a partir deste arcabouço teórico e desdobramento prático. Sobre o nome, Wiener recorda:

“We have decided to call the entire field of control and communication theory, whether in the machine or in the animal, by the name Cybernetics, which we form from the Greek chbernhthx or steersman.  In choosing this term, we wish to recognize that the first significant paper on feedback mechanisms is an article on governors, which was published by Clerk Maxwell in 1868 and that governor is derived from a Latin corruption of chbernhthx. We also wish to refer to the fact that the steering engines of a ship are indeed one of the earliest and best-developed forms of feedback mechanisms.” [4] (Wiener, 1971)

A influência da obra foi tal que, pouco mais de dez anos depois da publicação de Cibernética, em 1961, quando surge a 2ª. edição revisada, o conceito de feedback [5] e controle já estava estabelecido nos cursos universitários, tanto em engenharia como em biologia.

Os aspectos específicos dos temas abordados em Cibernética serão analisados no decorrer deste texto.

Karl Ludwig von Bertalanffy (1901–1972), filósofo austríaco doutorado pela Universidade de Viena em 1926, começou suas pesquisas em biologia ainda nos anos 1920, de quando datam seus primeiros artigos (Pouvreau, 2006). Com o amadurecer de suas pesquisas, surgem as ideias relativas à abrangência do conceito de sistemas. Ao perceber as relações entre níveis básicos e superiores de organização, e aquilo que designou por “isomorfismos” [6] dos diversos tipos de sistemas: orgânicos, mecânicos, sociais, entre outros, estabelece as ideias que culminam com a publicação da Teoria Geral dos Sistemas, nos anos 1970, já no Canadá. Esta obra, como o próprio autor afirma (“the present work consists of studies written over a period of some thirty years.”)  (Bertalanffy, 1972, viii), é uma consolidação de seus trabalhos anteriores publicados como um corpus estruturado. Suas ideias influenciaram diversos pensadores nos estudos dos sistemas, especialmente os ditos sistemas abertos.

Bertalanffy é razoavelmente desconhecido [7] e uma de suas alegações é que nem todas as publicações de artigos que utilizaram suas ideias, as atribuíram a ele:

“These remarks […] “organismic biology’’ has been re-emphasized by leading American biologists (Dubos, 1964, 1967; Dobzhansky, 1966; Commoner, 1961) without, however, mentioning the writer’s much earlier work, although this is duly recognized […]” [8] (Bertalanffy, 1972, p. 12)

Como possível explicação para este fato, deve-se considerar que grande parte dos artigos foi originalmente publicada em alemão e ainda, no período da segunda guerra mundial, momento no qual Bertalanffy esteve filiado ao partido nazista (Pouvreau, 2006, p. 284).

Ambos os pesquisadores tinham sólida formação humanista, sendo que importantes filósofos e  teorias epistemológicas lhes eram familiares. Discorrem em diversas passagens das suas obras sobre Leibniz, Hume, Hobbes, Spengler, Kant, entre outros.

Por outro lado, evitaram nos seus textos, em certa medida, elaborar teorias metafísicas e filosóficas. Como, por exemplo, destaca Bertalanffy:

…it is a conceptualization stemming from 17th century physics which, even though still prevailing in modern debates (Hook, 1961; Scher, 1962), is obsolete. In the modern view, science does not make metaphysical  statements, whether of the materialistic, idealistic, or positivistic sense-data variety.  (BERTALANFFY, 1972 pg. 220)

2. Abordagem

Ambos, Wiener e Bertalanffy, teóricos de uma área de conhecimento que na atualidade se insere na grande área de [Teoria Geral dos] Sistemas – “General Systemology”, de acordo com (Pouvreau; Drack, 2007) – analisaram problemas como a modelagem matemática de fenômenos dos organismos vivos e conceitos relacionados como os mecanismos de equilíbrio. Mas, na maior parte do tempo, utilizaram enfoques diferentes.

Com uma abordagem eminentemente prática, Wiener compreendeu que o controle da ação nos seres vivos, podia ser usado como inspiração e modelo para a construção de máquinas que, a partir dos anos 1940, se tornaram mais autônomas e passaram a dispor de recursos lógicos (computacionais) de funcionamento.

Como biólogo teórico, Bertalanffy entende os organismos se comportam como um sistema aberto, trocando matéria e energia com o meio ambiente enquanto se mantém em um nível de equilíbrio (steady-state ou regime permanente). Este nível, por sua vez, é diferente daquele de energia mínima entrópica (explicado mais a frente) dos sistemas fechados. Por isso ele concluiu que sistemas abertos orgânicos podem realizar trabalho [9], em oposição aos sistemas inorgânicos, em estado de energia mínima. Para se manter neste estado de equilíbrio, os organismos precisam constituir sua própria e permanente auto-organização.

3. As Obras

O livro Cibernética se divide em oito capítulos na versão original à qual foram acrescentados mais dois, na segunda edição. Segundo Masani, citando o próprio Wiener, o livro foi escrito no verão de 1947 a pedido de um editor francês, Freymann [10] (Masani, 1990, p. 251).

Cada capítulo trata de temas diferentes, quase independentes. As várias ideias e conceitos convergem no final.

GST está estruturado em dez capítulos mas, como são essencialmente reagrupamentos de artigos e textos anteriores de Bertalanffy, possuem redundâncias e repetições. Os conceitos são apresentados a partir de níveis básicos de organização e sobem em uma estrutura hierárquica, até os patamares de maior complexidade, tanto nos organismos vivos quanto em outros contextos (sociais, organizacionais, políticos) envolvidos.

Na sua segunda edição, de 1971, também foram adicionados dois capítulos cujo conteúdo, de certa forma, já havia sido tratado nos capítulos anteriores.

No próximo texto trataremos os conceitos utilizados na cibernética e na teoria geral dos sistemas e discutiremos seus usos.


[1] Teoria ergódiga: é o estudo do comportamento dos valores médios em longos períodos, em sistemas que evoluem no tempo (Dajani e Dirksin (2008)).

[2] A teoria das comunicações está em grande débito com Wiener por sua teoria e filosofia básicas.

[3] Julian Bigelow foi um matemático e engenheiro elétrico que participou do desenvolvimento da cibernética e do computador IAS, que deu origem ao primeiro computador totalmente eletrônico da IBM, o modelo 701 Engineering and Technology History Wiki (6 fev. 2020).

[4] Nós decidimos chamar toda a área da teoria de controle e comunicação, seja na máquina ou no animal, pelo nome de Cibernética, que nós formamos do grego  chbernhthx ou piloto. Ao escolher este termo, nós queremos reconhecer o primeiro trabalho importante em mecanismos de feedback em um artigo sobre controladores, que foi publicado por Clerk Maxwell em 1868 e também que governador é derivado da corruptela latina de chbernhthx. Nós também queremos nos referir ao fato de que os motores de direção de um navio são, de fato, uma das primeiras e mais bem desenvolvidas formas de mecanismos de feedback.

[5] no Brasil os biólogos usam o termo em Inglês e os engenheiros de controle usam “realimentação” (Aguirre (2020)).

[6] um isomorfismo é uma correspondência (relação) entre objetos ou sistemas de objetos, que expressam em algum sentido a igualdade de suas estruturas. Encyclopedia of Mathematics (18 mai. 2020).

[7] citações no Google Scholar de Cybernetics: 16.998, e GST: 1387 – pesquisa do autor em 18/05/2020

[8] Essas observações “biologia organísmica” tem sido reenfatizadas pelo renomado biólogo americano (…) sem, contudo, mencionar o trabalho muito anterior do autor, embora este seja amplamente reconhecido…

[9] trabalho (conceito da física): Transferência de energia através da aplicação de uma força na direção do deslocamento. Encyclopædia Britannica (21 mai. 2020).

[10] Enrique Freymann, editor da Editora Hermann, Paris. (Les éditions Hermann (2020).)

Bibliografia

Masani, P. R. Norbert Wiener 1894-1964. Basel: Birkhäuser Basel, 1990. 416 p. (Vita Mathematica, 5). ISBN 978-3-0348-9963-5

Shannon, Claude; Weaver, Warren. A Mathematical Theory of Communication: University Press, 1964.

Wiener, Norbert. Cybernetics: Or control and communication in the animal and the machine. 2. ed. Cambridge (Massachusetts): The M.I.T. Press, 1971. XVI, 212 str. (MIT, 25). ISBN 0-262-73009-x

Pouvreau, David; Drack, Manfred. On the history of Ludwig von Bertalanffy’s “General Systemology”, and on its relationship to cybernetics. International Journal of General Systems, v. 36, n. 3, p. 281–337, 2007. doi:10.1080/03081070601127961

Bertalanffy, Ludwig von. General System Theory: Foudantion, Developments, Application: George Braziller, 1972

Pouvreau, David; Drack, Manfred. On the history of Ludwig von Bertalanffy’s “General Systemology”, and on its relationship to cybernetics. International Journal of General Systems, v. 36, n. 3, p. 281–337, 2007. doi:10.1080/03081070601127961

Dajani, Karma; Dirksin, Sjoerd. A simple introduction to ergodic theory, 2008. Disponível em: <http://www.few.vu.nl/~gol400/lecturenotes2009.pdf>


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Primórdios da Complexidade – parte 1

Introdução

As ideias surgem, se inter-relacionam, se modificam. Às vezes desaparecem, outras vezes, hibernam. Por isso, ao contemplarmos as ferramentas intelectuais de que dispomos em dado momento, é importante também pensar na sua história, na sua origem e no seu percurso.

Sob este prisma, ensejamos a compreensão da Complexidade hoje, analisando alguns dos seus primeiros elementos, quais sejam, pensadores e projetos intelectuais nascidos no início do século XX e que se propuseram a capturar aspectos essenciais dos mecanismos que regem a vida, o comportamento humano e animal, a relação entre máquinas e seres vivos, e como todos esses elementos podem ser vistos de forma abrangente e interconectada. Em essência, é disso que tratam “Cibernética ou o Controle e a Comunicação no Animal e na Máquina” (WIENER, 1971) de Norbert Wiener e “Teoria Geral dos Sistemas” (BERTALANFFY, 1972) de Ludwig von Bertalanffy[1].

Saber a motivação dos seus autores, a forma como viam o mundo à sua volta e como utilizaram suas teorias, permite estabelecer um olhar crítico sobre a Complexidade, suas possibilidades e limitações e, possivelmente, tentar evitar repetir erros do passado.

Para situar inicialmente o leitor, veja o Mapa da Complexidade. Colocados no princípio da escala temporal estabelecida deste mapa (1940-1950), dois pensadores se destacam e de certa forma embasam todo o desenvolvimento contemporâneo das acepções do termo Complexidade, seja nas linhas filosóficas como o Pensamento Complexo de Edgard Morin (Morin, 2015) ou nas abordagens mais pragmáticas como Sistemas Complexos, Sistemas Complexos Adaptativos, Engenharia da Complexidade (Frei; Marzo Serugendo, 2012).

Independentemente do sentido considerado para a palavra Complexidade, uma coisa é certa: tanto Wiener quanto Bertalanffy colocaram em suas obras seminais ideias e conceitos que tratam de aspectos complexos da realidade, encarando uma certa necessidade de tentar compreender e controlar fenômenos cuja explicação é regida por regras ou leis tão elaboradas, intrincadas e inter-relacionadas que é humanamente (e frequentemente, computacionalmente) impossível de ser feito. Este artigo irá apresentar e contrapor as obras citadas e mostrar como ambas, que fundaram  áreas de conhecimento científico e acadêmico, relacionam-se com a Complexidade. A referida apresentação se dá através do detalhamento sucinto do contexto histórico da vida e do trabalho de cada um dos autores citados e a contraposição é mostrada utilizando-se um conjunto de conceitos escolhidos nos quais se indicam alinhamentos ou oposições. Dado que tanto a cibernética quanto a Teoria Geral dos Sistemas desenvolveram um conjunto de conceitos específicos e adicionalmente, que tais conceitos podem ter significados na atualidade diferentes daqueles que tinham quando as obras foram escritas, formulou-se uma seção inicial específica para as definições e discussões de sentido destes. A conclusão aponta alguns elementos que se mostram presentes no discurso da Complexidade na atualidade.


[1]   Neste e nos próximos artigos, a obra de Wiener será referida como Cibernética e o campo de pesquisa cibernética, grafado com letra minúscula; a obra de Bertalanffy será grafada GST  (General System Theory), como é conhecida em inglês.

Referências

Bertalanffy, Ludwig von. General System Theory: Foundation, Developments, Application: George Braziller, 1972.

Frei, Regina; Marzo Serugendo, Giovanna. The future of complexity engineering. Open Engineering, v. 2, n. 2, p. 123, 2012. doi:10.2478/s13531-011-0071-0

Morin, Edgar. Introdução ao pensamento complexo. 5. ed. Porto Alegre: Sulina, 2015. 120 p. ISBN 978-85-205-0598-4.

Wiener, Norbert. Cybernetics: Or control and communication in the animal and the machine. 2. ed. Cambridge (Massachusetts): The M.I.T. Press, 1971. XVI, 212 str. (MIT, 25). ISBN 0-262-73009-x.

Ambas as referências de Wiener e Bertalanffy estão disponíveis no site do Archive.org.


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Não só o pensamento branco, ocidental e “acadêmico”.

Ao pesquisar a Complexidade, até agora, tenho visto e lido muito de uma visão completamente euronormativa, brancocêntrica e “acadêmica” dentro dos cânones atuais.

Tenho certeza que falta a visão das negras e negros, povos originais de tantos lugares do mundo; é tante gente que já entendia efeitos como a parte no todo e o todo na parte, emergência de fenômenos, a impossibilidade de encontrar uma lógica causal para uma imensa quantidade de acontecimentos, entre os temas que já pensei…

Agora que mergulho no mundo da Complexidade, quero estar bem acompanhado:

Ideias para adiar o fim do mundo

A vida não é util

Racismo estrutural

Crítica da razão negra


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Mapa da Complexidade

Como qualquer coisa que a gente precisa ou quer conhecer, ter um mapa sempre ajuda.

Com a Complexidade não é diferente e Brian Castellani teve o trabalho de criar essa ferramenta: o Mapa da Complexidade.

Ela é muito completa, mencionando uma grande quantidade de pensadores e assuntos. Embora a figura apareça com 2018, ela está atualizada com as mais novas pessoas navegando no assunto.

Pessoalmente, eu comecei pelo começo; de forma temporal, pela linha do tempo que ele apresenta no começo.

Então estudei e escrevi sobre dois pesquisadores que nasceram na virada do século XIX para o XX (Norbert Wiener e Ludwing von Bertalanffy). Vou publicar neste espaço o artigo, aos poucos, para quem ler não se desanimar…


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Pensadorxs da Complexidade

Tem bastante gente pensando no assunto Complexidade, segundo muitos ângulos e perspectivas.

Vamos escrever um pouco sobre estas pessoas e em que medida contribuiram para o assunto.


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Complexidade

Tratar do tema Complexidade é uma tarefa grande e abrangente.

Ao mesmo tempo, é importante criar um local onde seja fácil encontrar textos, referências e outros materiais relativos ao tema.

Por isso faço esses textos.

Quero poder compartilhar o que descubro nessa viagem do doutorado com outras pessoas.