Introdução ao Pensamento Complexo

O texto a seguir é um resumo do livro “Introdução ao Pensamento Complexo” de Edgar Morin. Publicado em 2005 na França e em 2015 pela Editora Sulina no Brasil, é uma ótima forma de abordar o assunto. Morin apresenta as principais características do pensamento complexo, mostrando o que esse é e também o que não é.

Sua escrita é clara, embora por vezes requeira um certo conhecimento prévio de determinados pesquisadores e conceitos que estão longe de serem conhecimento geral. Então, em outros textos futuros pretendemos dar maior detalhamento de pessoas e teorias envolvidas na discussão da Complexidade.

Prefácio

“A complexidade é uma palavra-problema e não é uma palavra-solução”.

Explica que “não se trata de retomar a ambição do pensamento simples, de controlar e dominar o real” mas lidar e negociar com o real.

Desfazer duas ilusões sobre o pensamento complexo: que elimina a simplicidade. Na verdade, o pensamento o integra. A segunda seria confundir complexidade com completude, onde esta última seria entender a realidade completamente. E isso o pensamento complexo entende não ser possível.

A palavra complexidade chega a Morin no final dos anos 60, “através da teoria da informação, cibernética, da teoria dos sistemas, do conceito de auto-organização” e ele lança O Método.

O texto deste livro é um reagrupamento de textos de Morin escritos até então.

1. A Inteligência Cega

Morin inicia o capítulo enumerando 4 aspectos relativos ao erro, em que ele basicamente afirma que o erro não é algo que deve ser afastado mas algo com o que se aprender. O quarto ponto são as ameaças causadas pelo progresso científico desenfreado.

Explica o problema da organização do conhecimento mostrando que se pode ter entendimentos diferentes do mesmo fenômeno a partir de diferentes pontos de vista. Cita o exemplo da URSS e dos Gulags. Pode-se olhar a primeira como sendo um sistema justo e o segundo como uma excessão ou, ao contrário, vermos o Gulag como o símbolo que manifesta o caráter totalitário do regime soviético.

Assim, conclui que precisamos tomar consciência dos paradigmas que mutilam e desfiguram o conhecimento real.

Nesse ponto M. inícia a explicação de como o pensamento do sec. XVII cria o pensamento disjuntor, ao separar as áreas de conhecimento (física, biologia e ciências do homem). Essa mutilação provoca a inteligência cega que separa o objeto do observador. Esse caminhar da ciência leva a que os cientistas desconheçam e controlem o sentido de suas descobertas.

A necessidade do pensamento complexo é explicada, em primeiro lugar definindo o complexo como sendo “um tecido (complexus: o que é tecido junto)” de elementos heterogêneos. Criando o paradoxo do uno e múltiplo. É também o tecido dos acontecimentos, ações no mundo. Então a complexidade apresenta um emaranhado, desordem, incerteza.

A complexidade chega através das descobertas da segunda lei da termodinâmica, mostrando a desordem, da física quântica (que ele chama de microfísica) e de que o cosmos não é uma máquina perfeita.

Essas descobertas o levam a entender a necessidade de um conceito de auto-eco-organização. E de um princípio “Unitas multiplex” que escapa do holismo e do reducionismo.

Entende que as disputas epistemológicas entre Popper, Kuhn, Lakatos e Feyerabend não levam em conta a complexidade. Na nota de rodapé, informa que Bachelard e Lukács haviam escrito sobre complexidade.

2. O desenho e a intenção complexos. O esboço e o projeto complexos.

Começa tentando mostrar que existem dois enfoques antagônicos, um que acredita na unidade e outro que só vê as diferenças; e que ele não aceita nenhum dos dois.

Começa citando aquilo que designa por duas fissuras: a microfísica e as contradições da matéria e a macrofísica e a questão do espaço-tempo. Esses conceitos teriam abalado o conhecimento, ou sua epistemologia, pois mudaram a base de noções claras e distintas, realidade não ambivalente e estritamente determinada.

A teoria sistêmica e a cibernética se interseccionam; tudo se transforma em sistema. Cita que a ideia de sistema nasce de Bertalanffy e passa a permear toda a ciência, às vezes de forma profunda, às vezes rasa e superficial.

As virtudes dos sistemas: a) ter posto em evidência o todo composto por partes que não se reduz à soma das partes; b) ter concebido sistema como uma noção ambígua ou fantástica; c) situar-se em um nível transdisciplinar.

O sistema aberto se caracteriza por ser uma ponte entre a termodinâmica e as ciências da vida e apresenta uma ideia nova, além de equílibrio e desequilíbrio mas contém a ambas. E explica que através da interação com o meio, permite uma autonomia. Assim, “é sua abertura que permite seu fechamento”. As consequências do conceito de sistema aberto são, primeiro, que as leis de organização da vida são de desequiíbrio e não de equilíbrio e que a relação do sistema com o meio não é apenas de dependência mas constitutiva do sistema. Desde então a realidade está no elo e na distinção entre o sistema aberto e o meio.

Se admira como essa ideia demorou a emergir e que tem valor paradigmático. Maruyama afirma que, ao se conceber sistemas fechados, utiliza-se uma visão classificadora, analítica e reducionista.

Também diz que Bertalanffy não explora a auto-organização e complexidade na suas noções de sistema aberto.

Novos textos: Le Moigne, A teoria geral dos sistemas; Barel, O paradoxo e o sistema; Vuillerme, O conceito de sistema político.

Conclui que a teoria dos sistemas entrou nas ciências humanas contribuindo com duas abordagens ruins: um tecnocrático e outro, um vale-tudo, uma abstração geral. Mas que essa teoria de sistemas deve ser integrada.

Informação/organização. A informação é uma noção problemática; não se pode dizer muito sobre ela. Surge com Shannon e Weaver, um lado comunicacional e outro, estatístico. A noção se espalhou para a biologia, com o DNA. A reprodução é então concebida como cópia da mensagem; a mutação como ruído ou erro. A célula é cibernetizada e uma teoria de origem comunicacional era aplicada à uma realidade organizacional.

Ao mesmo tempo a teoria da informação se liga à termodinâmica. Assim a entropia negativa (neguentropia – Brilloin) é o desenvolvimento da organização, da complexidade. Aqui também surge um elo entre organização e informação bem como ordem física e ordem viva.

A questão da comunicação não consegue abarcar os múltiplos aspectos da informação: saber, mensagem, programa, matriz organizacional. Ou seja, a teoria atual não é capaz de compreendeer o nascimento e o crescimento da informação. Revela um aspecto limitado e superficial; é um ponto de partida, não de chegada.

A organização é um conceito ainda não organizado, requer um desenvolvimento na teoria dos sistemas.

Afirma que existe o conceito de organicismo e organizacionismo. O primeiro conceito tenta encontrar um paralelo entre a sociedade como um paralelo do organismo animal. O conceito que M. acredita quer encontrar princípios organizacionais comuns. Ao mesmo tempo, M. admite que o organicismo entendia o organismo como uma organização complexa e rica, que não pode ser compreendida com a mesma lógica da máquina artificial; mas não a propõe.

M. tenta complementar as noções de organização e organismo, afirmando que a primeira é uma visão redutora e mecanicista e a segunda não é a totalidade. Relacionando os dois traços está a auto-organização.

A auto-organização é a organização viva. Até Piaget teria ignorado esse conceito de auto, que M. considera fundamental.

Duas teorias são fundamentais: a dos autômatos autoreprodutores (self-reproducing automata) e sistemas auto-organizados (self-organizing systems). A primeira é devida à von Neumann e a segunda a Ashby, von Foerster, Gunther e outros. Afirma que teoria dos sistemas auto-organizáveis foi prejudicada pelo sucesso da cibernética e sua aplicação às máquinas. Mas que estava muito aquém para lidar com a vida.

De qualquer modo, cita que (1) Schrödinger colocou o paradoxo da organização viva em evidência e que (2) von Neumann destacou a diferença da máquina e vida. Enquanto as máquinas são compostas de partes altamente confiáveis mas tem uma confiabilidade de conjunto muito menor, as “máquinas” vivas possui componentes de baixa confiabilidade mas o conjunto apresenta alta confiabilidade.

Então isso mostra o elo entre desorganização e organização complexa, de entropia e reorganização (neguentropia). E que às coisas vivas não podem ser aplicados princípios simples, da lógica mecânica. (3) A auto-organização muda o que M. designa por ontologia cibertnética pois (a) transforma o objeto em individual, com organização interna; enquanto a máquina dispõe de uma organização externa a si mesma, o sistema vivo é autônomo em sua individualidade. (b) é dotada de autonomia, embora relativa. Há uma coincidência entre uma metaorganização e uma auto-organização.

Nesse ponto o sistema auto-organizador, ao interagir com o meio, passa a ser auto-eco-organizador. E ele só faz sentido ao incorporar a si mesmo e ao meio no qual se insere.

A complexidade era mais comum na linguagem comum que na científica e nesta última, na dialética hegeliana, onde introduzia a contradição e a transformação.

Na ciência a complexidade  aparece na microfísica [física quântica] e macrofísica. Na primeira, na própria dualidade da onda/partícula e na questão objeto/observador. E na segunda, na questão tempo/espaço, que eram transendentes e independentes mas a passam a depender do observador e local.

Com a cibernética a complexidade entra em cena e com von Neumann, os fenômenos de auto-organização.

A complexidade é então um fenômeno quantitativo com um número extremo de interações (sistemas vivos como bilhões de células) e componentes mas também com incertezas, indeterminações e fenômenos aleatórios. Compreende a questão da mistura de ordem e desordem. E que a cibernética reconhece a complexidade como o conceito de caixa-preta, ou seja, tem-se inputs e outputs mas não se sabe o que acontece dentro. E o propósito da complexidade é entender o que há dentro da caixa-preta.

Entende que necessário construir vários graus de complexidade, indo cada vez ao mais complexo que culmina com o problema humano. Isto seria a Hipercomplexidade.

Com relação à questão de sujeito e objeto, M. traça considerações dizendo que a teoria da auto-organização e da complexidade permitem uma abertura teórica em que ciências sociais e biologia passam a ser física, biologia, antropologia. A noção de sistema aberto se amplifica sobre a physis ( a natureza ordenada e desordenada da matéria) e sobre os sistemas abertos, englobando horizontes mas vastos.

Nesse sentido, o sujeito emerge com o mundo e é tal que ele pode se conceber, ou seja dispõe de consciência ou self-awareness segundo Gunther (Cybernetic Ontology and transjunctional Operations, 1960). E também individualidade irredutível, sufiiência e insuficência, como sistema aberto.

M. entende o mundo que coloca sujeito e objeto como emergências últimas, inseparáveis da relação sistema auto-organizador/ecossistema, pois considera que a ciência ocidental eliminou o sujeito a partir da ideia que os objetos existem independentemente e que o sujeito é o “ruído” ou perturbação.

Ao ser eliminado da ciência, o sujeito passa a existir na moral, na ética, onde passa ser a sede transcendental destas. Mas, afirma M. um não pode existir sem o outro, ou seja, o objeto e o sujeito, entregues cada um a si próprios, são conceitos insuficientes.

Nesse ponto, M. faz algumas referências à Schrödinger e como ele discute esse aspecto do sujeito e objeto, afirmando que que a consciência é, de um lado, o palco onde o conjunto do processo mundial acontece e, de de outro, um acessório insignificante que pode estar ausente sem afetar o conjunto.

Então, segue M., o caminho foi aberto com declinar da alternativa excludente de determinismo/acaso e também da questão sujeito/objeto. Continua mostrando que partindo do sistema auto-eco-organizador, se sobe ou desce em complexidade, chegando-se ao fato de que o mundo está no interior da nossa mente e esta está no interior do mundo.

Conclui dizendo que o erro foi o de termos fechado os conceitos de sujeito, objeto, de ambiente; que se permancerem abertos, permitem novas descobertas (numa citação de Bohr).

Passa a fazer considerações epistemológicas, ou seja, tentar criticar a própria teoria. Precisa-se considerar (a) que estamos no ecossistema natural, e temos que levar em conta os aspectos biológicos de nosso próprio conhecimento. (b) e nosso ecossistema social, que produz determinações/condicionamentos.

M. entende que esse esforço, de qualquer modo, esbarra nas próprias limitações humanas, pois, o cérebro não dispõe de mecanismos que permitam saber o que é realidade e ilusão e, no conhecimento social, nada que garanta a validade de uma teoria.

Assim, precisamos de um novo metasistema, mas, de acordo com Gödel, não podemos encontrar um último metasistema que englobe tudo; sempre haverá indecidibilidade.

Nesse ponto, introduz o conceito de quebra de paradigma de Kuhn, mostrando que o sistema precisa ser quebrado e rompido para que haja substituição por uma nova teoria.

A teoria da auto-organização traz em si dois aspectos: requer que haja abertura e reflexividade (auto) e em suas duas relações fundamentais: ecossistêmicas e metassistêmicas. São verdades biodegradáveis.

Essa scienza nuova[1] (termo emprestado de Vico), pressupõe uma ontologia que prioriza a relação à substância e também as emergências, interferências como constitutivos do objeto. Torna-se um conjunto teórico/metodológico/epistemológico coerente e aberto.

Propugna uma unidade da ciência em que ela possa apreender a unidade e diversidade, continuidade e rupturas. Considera que há um diferença com o positivismo lógico que que proibia o olhar para o incerto, ambiguo e contraditório.

Afirma que esta teoria escapa da cegueira e arrogância da qual sofrem o  marxismo, o freudismo e o estruturalismo, apresentando um abordagem transdisciplinar, aceitando o que se classifica como “não científico”.

Há que se reintegrar o acaso e o acontecimento. E se reconhecer a inventividade e a criatividade como fenômenos antropológicos de base. Então a scienza nuova propõe que não só o objeto seja adequado à ciência, mas a ciência ao objeto.

A superação das alternativas clássicas se dá ao considerar que a redução não é nem a única nem a última palavra; não destrói a ciência clássica; a incorpora e complementa.

Nesse ponto considera a virada paradigmática, em nível ontológico, metodológico, epistemológico e lógico propriamente, com consequências na prática, na sociendade e na política. Essa virada requer mudar as bases de lançamento de um raciocínio, as relações associativas e repulsivas entre alguns conceitos iniciais dos quais dependem a estrutura do raciocínio e todos os desenvolvimentos discursivos possíveis.

3. O paradigma complexo

A complexidade aparece já no século XIX, onde, enquanto a ciência tenta eliminar os aspectos da individualidade e até mesmo o tempo, estes aparecem na literatura.

O primeiro passo é então entender que existe um paradigma simplificador para quem não existe desordem, para quem é necessária a disjunção e a redução dos fenômenos.

Exemplifica com o caso do homem, dividido em biológico e cultural. Mas no paradigma simplificador, cada aspecto vai ser estudo em departamentos diferentes. E se esquece que não há um sem o outro.

Conjectura que a crença científica em um universo perfeito ocorre quando os cientistas prescidem de Deus e buscam as leis últimas que nos regem. Isso vale para o cosmos e para as partículas. Mas ocorre a “descoberta” da desordem com os trabalhos de Boltzmann.

Chega-se ao paradoxo da ordem e desordem. Por um lado, o universo caminha para a máxima entropia. Ao mesmo tempo, as coisas se organizam, desevolvem e complexificam. Mostra como, não são ideias que se opõe mas, na verdade, a organização surge da desorganização, assim como a extinção das espécies é que faz surgir as novas. Descreve o turbilhão organizador que é um movimento ao mesmo tempo, organizado (turbilhão) mas desorganizado (originado da turbulência).

O mesmo se dá com o surgimento do universo. Da explosão incial, forma-se as estrelas, destas a matéria; forma-se mesmo o tempo e o espaço. Ou seja, do nada, forma-se o que existe. O mesmo se dá com os seres vivos. Vivem mas suas células morrem e se renovam. Bem como a sociedade, cujos indivíduos morrem mas a sociedade persiste, através dessa renovação.

Todas essas relações só podem ser explicadas por noções complexas.

Insiste que alguns cientistas tentam superar a complexidade através da busca de ideias metafísicas que harmorizam esses paradoxos e que esse caminho seria equivocado; há que se aceitar a contradição e entender que a harmoria está ligada à desarmonia do universo.

Os físicos teriam substituído a matéria pelo espírito e com isso utilizado uma visão simplificadora do universo. Os biólogos fazem o mesmo com quadros gerais. E na verdade, os indivíduos são únicos.

Nesse ponto passa a discutir o conceito de sujeito. Diz que é um conceito difícil, que no determinismo não há sujeito. Sujeito não quer dizer ser consciente; quer dizer colocar-se no centro do próprio mundo. Ser autônomo mesmo sendo dependente.

Ao discutir autonomia humana, explica que depende, na verdade, de várias circunstâncias externas como linguagem, cultura, educação e sociedade. E levanta algumas hipóteses sobre nosso real livre-arbítrio pois o mesmo está condicionado a fatores externos, como sugestão e internos, como nossa genética.

M. explica que complexidade está ligada, por um lado, à incerteza, incapacidade de formular uma lei e de outro, à incapacidade de evitar as contradições. Do ponto de visa da complexidade, ao se chegar às contradições, chega-se a uma camada mais profunda da realidade.

Nas ciências humanas, a visão não complexa separa a realidade econômica, psicológica, demográfica, etc. Enquanto essas visões não podem ser separadas; não se pode compreender uma realidade de forma unidimensional.

Mas a complexidade não implica em completude; ou seja, a complexidade nos faz compreender que jamis poderemos ter um saber total.

A complexidade não deve também ser confundida com complicação. A complicação, esse emaranhado das inter-relações, é um dos constituintes da complexidade.

As ferramentas para conhecer o universo complexo são racionais. Então a razão precisa ser criticada. Nesse sentido, entende-se que a razão é a vontade de se ter uma visão coerente do mundo. Nossa racionalidade é o diálogo das estruturas lógicas que aplicamos ao mundo real. Mas percebemos suas limitações. Já quando se racionaliza, quer-se prender a realidade a um sistema coerente. A paranóia é um tipo de racionalização.

No passado, antropólogos, ao se confrontarem com sociedades ditas primitivas, não entendiam sua racionalidade, pois são difentes das nossas. Mas nós mesmos vivemos embebidos em mitos, magias, mas de outra espécie. Por isso é necessária essa autocrítica à própria racionalidade.

O ser humano tem dois delírios: o da incoerência absoluta e o da coerência absoluta.

Para pensar a complexidade do real são necessários macroconceitos. E esses conceitos devem ser definidos por seus núcleos, não por suas fronteiras, que são sempre fuidas e interferentes.

Os três princípios da complexidade são: (a) o dialógico. Cita o caso do DNA e dos aminoácidos. O primeiro, em estado mais permante, assegura a continuidade e a reprodução. Os segundos, se decompõe e sustem a vida. Estão em contradição e, ao mesmo tempo, necessitam um do outro. O processo sexual, cria novos seres que, por sua vez, passam a participar do processo sexual. Ou seja, são necessários um ao outro. A ordem e desordem podem também ser vistas à luz da dialógica. (b) recursão organizacional. Lembra do turbilhão, que é produto e produtor. A sociedade é composta pela relação dos indivíduos que a formam e esta ao retroagir sobre os  indivíduos que a compõe, se perpetua. (c) hologramático. Traz a ideia que o todo está na parte e a parte está no todo. No mundo biológico, a célula carrega toda a informação do organismo. Entende que estas três ideias, ao realimentarem o conhecimento das partes no todo e do todo nas partes, estão interligadas.

O sociólogo precisa, para suas análises, se colocar como parte da sociedade, não acima dela. De certa forma, ele poderia ter metapontos de vista, visualizando-a de um mirante. Mas não poderá ter um sistema externo absoluto, pois esse metasistema não pode existir, pela lógica de Tarski e pelo teorema da incompletude de Gödel.

M. adimite a hegemonia do paradigma cartesiano que formulou muito bem a disjunção, deixando a ciência de um lado e a filosofia de outro. O paradigma complexo resultará do conjunto de novas concepções, novas visões e novas descobertas. Em oposição à disjunção e redução, predomirão, a conjunção e a implicação. M. entende que se verá o efeito voltar-se sobre a causa, a junção do uno e do múltiplo, sem que o uno se dissolva no múltiplo.

4. A complexidade e a ação

A ação é também um desafio. Às vezes tem-se a impressão que ação simplifica, como no caso do corte do nó górdio.

Mas ação é estratégia. Não é um programa pré-definido mas um conjunto de possibilidades que se modficam em função das novas informações que chegam, os cenários da ação.

A estratégia luta contra o acaso e busca a informação; é aproveitar-se do acaso e utilizar erros do adversário. O acaso não é apenas negativo, pode ser usado como chance.

Deve-se estar atento às derivas e bifurcações. Às vezes situaões iniciais semelhantes conduzem a resultados completamente diferentes. O campo da ação é muito aleatório e incerto e nos impõe uma consciência aguda nos acasos e derivas.

A ação escapa às nossas intenções

Aqui surge a ecologia da ação que é o fato de que a ação escapa das intenções originais de quem a executou. A ação supõe complexidade, ou seja, imprevisto, iniciativa, decisão, consciência das derivadas, transformações.

Não há de um lado o pensamento e reflexão, complexos e de outro, a ação, simples. A ação é o reino, concreto da complexidade.

Nós somos, a maior parte do tempo, máquinas triviais, que se pode prever o comportamento. Mas, em momentos de crise, age de forma imprevisível.

Deve-se preparar para o inesperado; não se pode programar a descoberta, nem o conhecimento nem a ação. Precisa-se pedir ajuda ao pensamento complexo para ele nos ajude a criar uma estratégia para lidar com esses problemas e siturações complexas.

5. A complexidade e a empresa

Neste capítulo M. discute como a complexidade se relaciona com uma empresa. Começa com sua afirmação de que o todo é, ao mesmo tempo, mais e menos do que a soma das partes.

Fala das três causalidades: uma primeira, linear; tal coisa produz tais efeitos. Uma segunda, circular retroativa. Baseada na ideia do feedback, por exemplo, na empresa, a produção é regulada pelas vendas externas. O terceiro ângulo: causalidade recursiva. A empresa se mantém e se aperfeiçoa para produzir, ou seja, ela produz e se produz.

Entende que precisamos ter essa compreensão; as entidades não estão em oposição, mas se completam e interagem.

Da auto-organização para a auto-eco-organização é para enfatizar que as empresas estão inseridas em um meio. Portanto elas se auto-organizam em função dele, o eco. Esse princípio é influenciado pelo princípio hologramático, ou seja, cada parte do sistema contém quase a totalidade da informação do todo.

Para viver e lidar com a desordem é necessário entender como ordem, desordem e organização se relacionam. M. entende que cada um precisa do outro para existir. Não pode haver só ordem (ausência de criatividade) nem só deordem (anarquia). Então esses conceitos colaboram entre si.

Em seguida, passa para a ideia da oposição programa/estratégia. O primeiro traz economia, não se precisa refletir. O segundo permite levar em conta a aleatoriedade e adversidade.

Chega à burocracia que diz ser ambivalente. Mais a frente, chama a burocracia de parasitária.

Conclui esta parte descrevendo o fator “jogo” em que os acontecimentos inesperados exigem uma flexibilildade da estrutura, há que se deixar uma parcela da iniciativa aos indivíduos e escalões.

Assim, as relações na empresa são complementares e antagônicas. Dá alguns exemplos. Fala da economia soviética e que esta só sobreviveu porque os vários níveis envolvidos desenvolveram uma anarquia espontânea, ou seja, deram um jeito nas regras que não podiam ser cumpridas. Menciona a dificuldade de integrar a desordem na empresa, que traz liberdade e inventividade mas também decomposição e morte.

Fecha o capítulo explicando que a solidariedade (redes informais de colaboração, as autonomias) é a solução que permite o incremento da complexidade na organização, que, de outra forma, se desintegraria.

6. Epistemologia da Complexidade

Este capítulo é uma discussão ocorrida em um simpósio em Portugal.

Começa falando dos mal-entendidos sobre seus conceitos. Sobre a completude de sua teoria, afirma que a própria ideia de complexidade comporta em si a impossibilidade de unificar, da conclusão, contém uma parcela de incerteza e indecidibilidade.

Cita Adorno e seu conceito que a totalidade é a não verdade.

Diz que gosta que Hegel enfrentava as contradições; diz gostar de integrar os pensamentos. Gostaria de ultrapassar a contradição sem negá-la.

Se afirma de direita e esquera, ou seja, liberal e ciente dos problemas dos diretos, mas também que as relações humanas poderiam mudar em profundidade. Diz acreditar em um pensamento o menos mutilador e mais racional possível.

Entra então nos aspectos específicos da ciência. Questiona-se como o mundo físico tende à decadência enquanto o mundo biológico ao progresso. Entende que isso é um problema de lógica e paradigma. Questiona as ideias gerais ao mesmo tempo que defende que total ausência de ideias gerais é também uma generalização ainda pior. Questiona se o cientista consegue se colocar este tipo de dúvida. Fala que estamos na pré-história do espírito humano e que isto abre muitas possibilidades, desde que a humanidade tenha futuro.

Sobre as abordagens da complexidade, diz que a simplificação é importante e está incorporada na complexidade. Qua a própria complexidade está na relação do simples com o complexo, relação antagônica e complementar. Vê-se frente da filosofia induista, do mundo das ilusões de maya. Considera, então, que essência da complexidade do mundo é inconcebível.

Remete à ideia de Whitehead em que, por trás da ordem Pitagórica havia os números e a ideia religiosa em Descartes e Newton de que a inteligência é o fundamento da ordem no mundo. Aqui M. opõe a complexidade. E concorda com um dos palestrantes que entende a complexidade não como um fundamento mas um princípio regulador.

Volta a uma discussão da ciência e afirma que ela é complexa. Se baseia em 4 pilares: racionalidade, empirismo, imaginação e verificação. Ao discutir biologia, acha que esta pagou um preço ao simplificar, tendo que introduzir a ideia de máquina, de informação e programa.

Acha que há vários níveis de visão, proporcionados pelas várias ciências.

Diz que o cerne da complexidade é a impossibilidade de reduzir, a questão do unitas multiplex.

Sobre o ruído, diz que não é a fonte de criatividade, mas uma delas. Retorna à ideia de que são necessárias ordem, desordem e organização; são interdependentes e nenhuma é prioritária. Entende que a informação deve ser definida com físico-bio-antropológica. A informação aparece com o ser vivo.

E passa de informação para conhecimento. Faz diversas considerações sobre a diferenciação de ambos e do surgimento do conhecimento. Ao dizer que não nos conhecemos, apenas podemos nos entender a partir de fora de nós mesmos, afirma que o conhecimento emerge de um gigantesco desconhecimento de nós mesmos.

Sobre paradigmas, acha a ideia de Kuhn hesitante e incerta. O paradigma seria uma maneira de controlar ao mesmo tempo o lógico e o semântico.

Depois discute o que entende por oposição da ciência e filosofia já que a primeira é empírica e a segunda, reflexiva. Acredita na união de ambas.

Acha difícil a relação ciência e sociedade. E no que diz respeito à relação ciência e psicologia, cita o diálogo entre Piaget e Chomsky sobre o que é inato e construído, na cognição humana. Que M. entende ser dialógica.

Se entende como um autor não oculto, que aparece com sua subjetividade nas obras. E conclui falando sobre a idade do ferro da humanidade. Todas as culturas e civilições estão em contato. E ao mesmo tempo, de estarmos subordinados à ideias mutilidoras e disjuntivas e não conseguirmos pensar de forma complexa. Exemplifica que a civilição oferece tanto bem estar e ao mesmo tempo, atomização das relações humanas que conduzem à agressões e violências. Isso serve de contraponto para o fim da história e para entender que talvez estejamos no final de um certo tempo e no começo de novos tempos.


[1] https://plato.stanford.edu/entries/vico/